Compreender a biologia de cada tumor deixou de ser um detalhe técnico e passou a ser o que define, hoje, o sucesso do tratamento do câncer gástrico avançado
Por muito tempo, o câncer gástrico avançado foi tratado como uma doença única, com um único caminho terapêutico: a quimioterapia, aplicada em sequência, de primeira a terceira linha. Os desfechos variavam muito de paciente para paciente, sem que houvesse clareza sobre o motivo. Nos últimos anos, no entanto, essa lógica mudou e a compreensão mais profunda da biologia tumoral, aliada à chegada de novas estratégias terapêuticas, orientou o tratamento para um grupo de doenças distintas, cada uma com características próprias e diferentes possibilidades de condução.
Para o oncologista clínico pelo Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP-USP) Dr. Manoel Carlos Leonardi de Azevedo Souza, entender essa mudança é essencial para dimensionar o momento atual da oncologia gástrica e os desafios que ainda impedem que seus benefícios cheguem a todos os pacientes.
Segundo o médico, o Brasil apresenta particularidades importantes nesse cenário. “A incidência da doença é historicamente menor aqui do que em países hispano-americanos, embora essa diferença venha diminuindo nos últimos anos, um dado que reforça a necessidade de atenção constante à descoberta precoce”.
Desfazendo o mito da doença terminal
Um dos equívocos mais persistentes, segundo o especialista, é o de que o câncer gástrico avançado é sinônimo de sentença terminal.
Embora ainda seja uma condição grave, o entendimento cada vez mais preciso dos caminhos biológicos da doença tem permitido resultados impensáveis até pouco tempo atrás, inclusive casos de resposta completa e sustentada a algumas estratégias terapêuticas. “É uma doença tratável, que exige muitos cuidados, mas que hoje conta com um leque de opções terapêuticas muito diverso. Conseguimos aumentar a sobrevida com qualidade de vida e, em alguns casos, curar, dependendo da resposta individual de cada paciente”, afirma o médico.
Os gargalos do tratamento
O especialista organiza os principais desafios no entorno do câncer gástrico em três frentes.
A primeira é o diagnóstico rápido e adequado, que depende de exames como endoscopia, tomografia e biópsia, cujo acesso ainda é desigual, especialmente na saúde pública.
A segunda frente é a classificação biológica do tumor. Saber se um câncer gástrico apresenta características que podem indicar resposta a determinadas estratégias terapêuticas deixou de ser acessório e passou a ser decisivo para escolher o tratamento certo. “A gente sabe que existe um déficit grande de patologistas na América Latina, assim como uma dificuldade técnica para classificar esses tumores de maneira adequada. Fazer esse diagnóstico correto significa tratar melhor, com menos efeito colateral e mais benefício”, afirma.
A terceira frente, e talvez a mais determinante na prática, é o acesso às terapias que resultam dessa classificação. Não adianta identificar corretamente as características de um tumor se o paciente não consegue chegar à estratégia terapêutica indicada para aquele perfil.
Os avanços que mudaram a prática clínica
A chegada da imunoterapia e da medicina de precisão trouxe mudanças importantes para o tratamento do câncer gástrico avançado. A principal delas foi a possibilidade de utilizar determinadas características biológicas do tumor para orientar a escolha terapêutica.
Um dos avanços foi a incorporação da imunoterapia para pacientes cujos tumores apresentam determinadas características que podem indicar maior possibilidade de resposta. Estudos clínicos demonstraram que essa abordagem, em associação ou não a outras estratégias, pode ampliar os resultados do tratamento em grupos específicos de pacientes.
Outro marco foi a identificação de proteínas presentes em uma parcela dos tumores gástricos. Essas descobertas abriram caminho para terapias capazes de reconhecer características específicas das células tumorais e atuar de maneira mais direcionada.
O mesmo princípio se aplica a outras alterações biológicas identificadas nos tumores.
A caracterização de proteínas relacionadas ao crescimento celular, por exemplo, permite selecionar pacientes que podem se beneficiar de estratégias terapêuticas desenvolvidas especificamente para aquele perfil.
O resultado é uma mudança importante na lógica do tratamento: em vez de considerar apenas a localização e o estágio da doença, a oncologia passou a incorporar cada vez mais as características biológicas do próprio tumor na tomada de decisão.
“É como se, antigamente, eu quisesse limpar uma área de mata fechada jogando um único remédio potente em tudo. Hoje, com diferentes remédios específicos para cada tipo de planta, consigo limpar a área de forma mais adequada, agredindo menos o ambiente”, compara o Dr. Manoel Carlos.
Isso representa a possibilidade de tratamentos mais direcionados e de escolhas terapêuticas mais individualizadas, considerando não apenas a doença, mas também as características de cada tumor.
O papel da indústria farmacêutica no acesso
Para o Dr. Manoel Carlos, a parceria com a indústria farmacêutica é peça-chave para reduzir as desigualdades de acesso em um país tão heterogêneo quanto o Brasil. Isso passa por dois caminhos complementares: o financiamento de testes moleculares, muitas vezes caros e, por isso, inacessíveis sem programas de apoio, que permitem classificar corretamente cada tumor, e a capacidade de transformar descobertas científicas em novas estratégias terapêuticas efetivamente disponíveis na prática clínica.
A mensagem que o Dr. Manoel Carlos deixa para pacientes e familiares diante de um diagnóstico de câncer gástrico avançado é direta: trata-se de uma doença que exige cuidado constante, mas que hoje pode ser manejada com um conjunto de opções terapêuticas muito mais amplo do que há alguns anos.

