Em entrevista à Camber, o Dr. Júlio Pereira, oncologista no Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP) , cofundador do Clube da Mama SP (iniciativa de educação continuada multidisciplinar em oncologia mamária) e coordenador médico na Onco Center Clínica, fala sobre os avanços no tratamento do câncer de mama, destacando os desafios de transformar inovação científica em acesso e melhores condições de cuidado.
A cada novo avanço no tratamento do câncer de mama, uma pergunta ganha importância: como fazer com que aquilo que a ciência tornou possível chegue, de fato, às pacientes.
A oncologia mudou profundamente nas últimas décadas: novas terapias, conjugados anticorpo-droga (ADCs) e a evolução dos biomarcadores ampliaram as possibilidades de tratamento e tornaram as decisões cada vez mais específicas. Diversas siglas como BRCA, PIK3CA, ESR1, AKT, pouco compreendidas pelo público leigo, passaram a fazer parte de uma conversa que considera não apenas o tipo de câncer, mas as características de cada tumor.
Para o Dr. Júlio, essa evolução traz um desdobramento importante: “Estamos vivendo um período de enorme transformação no tratamento do câncer de mama, avançando cada vez mais no tratamento da especificidade da doença. E nesse contexto, talvez o nosso maior desafio hoje seja tornar o acesso tão veloz quanto as descobertas, para que possam chegar para todas as pacientes.”
Sobre disponibilidade e alcance do tratamento do câncer de mama
Quando se fala em acesso ao tratamento do câncer de mama, a primeira associação costuma ser focada no medicamento. Mas a jornada de acesso começa muito antes e continua depois dele. É preciso chegar ao diagnóstico, realizar uma série de exames dedicados, agendar consultas diversas, tudo isso onde o tempo é uma condição essencial para os desfechos clínicos.
Essa visão está alinhada à própria abordagem da Organização Mundial da Saúde para o câncer de mama, que considera a continuidade do cuidado e a conclusão do tratamento como parte fundamental da resposta à doença.
No Brasil, esse percurso ainda é marcado por diferenças regionais e sociais; o acesso a toda a cadeia de tratamento e até mesmo às condições básicas para mantê-lo pode variar significativamente.
Medicina de precisão depende de acesso à informação
Dentre as evoluções no cenário do câncer de mama, a leitura das informações técnicas também é fator decisivo.
Alterações em genes podem ter implicações terapêuticas em diferentes cenários e a sua compreensão também se tornou mais sofisticada, permitindo identificar características que antes não eram consideradas na mesma perspectiva.
Por isso, a informação precisa estar disponível no momento em que a decisão é tomada. Uma terapia direcionada a determinado biomarcador depende da capacidade de identificar pacientes que apresentam aquela característica. Isso significa que inovação terapêutica e infraestrutura diagnóstica precisam caminhar juntas.
Essa transformação também amplia a discussão sobre o papel da indústria farmacêutica dentro da oncologia.
Pesquisa e desenvolvimento de medicamentos continuam no centro da atuação do setor. Mas a oncologia em sua complexidade exige uma contribuição que dialogue com todo o ecossistema.
Nesse contexto, o Dr. Júlio aponta para oportunidades que se configuram em parceria: “A indústria farmacêutica tem um papel importante nesse processo e pode contribuir de diferentes formas, apoiando pesquisa clínica, geração de dados brasileiros, educação médica de qualidade, ampliação do diagnóstico e dos biomarcadores, produção de evidências de mundo real e iniciativas que ajudem a identificar e reduzir barreiras ao longo da jornada da paciente. Além disso, é essencial fortalecer o diálogo e as parcerias entre a indústria, o governo e as instituições de saúde, buscando soluções sustentáveis que ampliem o acesso às novas tecnologias e aos tratamentos inovadores. Afinal, a verdadeira inovação só acontece quando os avanços da ciência chegam, de forma oportuna e equitativa, às pacientes que precisam deles.”
Para o Dr. Júlio, essa relação precisa ser construída com transparência, responsabilidade e respeito à independência de cada ator nessa cadeia, para além da indústria, inclusive. Iniciativas como o Clube da Mama, por exemplo, contribuem para essa troca ao criar espaços de discussão científica, atualização e aproximação entre profissionais de diferentes regiões e realidades.
O objetivo não é criar conexões capazes de transformar conhecimento em decisões e ações melhores.
O que o Outubro Rosa nos lembra
O diagnóstico precoce continua sendo fundamental, mas ele é apenas o início da jornada. Por isso, talvez uma das perguntas mais importantes para esta data temática seja menos “quais são as novas descobertas?” e mais: “Como fazemos essas descobertas chegarem a quem precisa delas?”
A resposta está na capacidade de conectar ciência, diagnóstico, conhecimento, inovação e acesso.
Na Camber, acreditamos que esse é também um dos caminhos para dar sentido à inovação: contribuir para que ela faça parte de uma jornada mais sinérgica entre todos e centrada nas pacientes.

